Este é o texto de apresentação de “Jogos de guerra”. O do catálogo é diferente e maior. Esperamos vocês em São Paulo no dia 6 de março, a partir das 16h, para a inauguração no Memorial da América Latina.
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O embate com o outro está na raiz dos países, das paixões, da economia e dos idiomas. Se quem ama morre um pouco, perdendo ou vencendo batalhas íntimas, quem fala vira assassino de outros falares. Não se cria uma língua sem arrasar com outras.
O português que aprendemos no Brasil só se afirmou como idioma oficial ao destruir os léxicos de tupis e guaranis, roubando para seu corpo parte da alma dos vencidos. Mais tarde, os dialetos dos escravos africanos arredondaram frases e destacaram as vogais, adoçando nossa fala rumo à música.
Por que estou falando de língua numa exposição de arte? Porque uma de minhas tarefas nestes Jogos de guerra é escrever. Um texto é uma sucessão de batalhas, da qual dificilmente se sai ileso. O consolo é não estar sozinha: esta mostra conta com trabalhos que apresentam o confronto dos artistas com sua própria obra ou o meio que os cerca.
Nesta arquitetura desafiadora criada por Oscar Niemeyer, que muitas vezes duela com o que ousa ocupar seu espaço interno, apresentamos uma sequência de obras de arte em um ciclo de conflitos e tréguas.
Vemos a antropofagia dos tempos coloniais, em que os tupinambás engoliam o homem branco para tirar dele sua força, mas também a guerra de todos os exércitos, do dinheiro, da religião, da cultura de massa e das raças.
É a guerra que começa na infância, quando aprendemos num tabuleiro de “War” a arrasar com os exércitos azuis conquistando Aral, Dudinka ou Vladvostoki. Ou a odiar o time de futebol do vizinho do apartamento 32, transformando o playground em batalha campal depois da disputa de pênaltis no Parque Antártica (ou no Morumbi, ou no Pacaembu, ou em Vila Belmiro, não fiquem nervosos, por favor).
É a trincheira urbana do tráfico, com suas balas traçantes, mas também o bunker do isolamento, que impede a visão de semitons e diferenças. É a violência doméstica, do inimigo mais próximo, e as depressões e pesadelos que estão apenas dentro de cada um e são um tipo de tormento para chamar de seu.
Jogar com a guerra é encontrar o jeitinho, a fresta, a metáfora, a trilha que ilumina a estrada principal. A arte é um dos melhores modos de começar a partida. Os negros derramaram melado de cana nas consoantes brancas e plantaram em nossa língua a herança que é sua pequena-grande vitória. A ironia, o humor e as sutilezas que constituem alguns dos trabalhos apresentados aqui vão na mesma direção. Rir da desgraça, purgar o crime e satirizar o algoz é enxergar a briga de outro ângulo, revisando estratégias.
A arte é bandeira branca e ao mesmo tempo munição e revide. Às armas, então.
Daniela Name